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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sim, é possível!

Barack Hussein Obama considerado por muitos o Sr. que tem nas suas mãos o futuro do Mundo, teve um percurso de vida peculiar.
Obama nasceu em Honolulu, Havai, a 4 de Agosto de 1961. Filho de um economista queniano e de uma antropóloga estaduniense branca oriunda do Kansas. Após o divórcio dos pais, quando Obama tinha apenas 2 anos, o pai regressou ao Quénia onde prosseguiu uma carreira política importante. Morreu em 1982 vítima de um acidente de automóvel.
A mãe casou com um indonésio em 1967 e a família mudou-se para Jacarta, onde Obama estudou em várias escolas (muçulmanas e cristãs) até aos 10 anos. Regressou a Honolulu , onde viveu com os avós maternos, até aos 18 anos, recebendo vistas frequentes de sua mãe que viajava até ao Havai em questões de trabalho. A mãe morreu em 1992 vítima de cancro.
Após o Ensino Secundário Barack Obama estudou no Occidental College, em L.A.; aos 20 anos transferiu-se para a Universidade de Columbia, em N. Y., onde se graduou em ciência política com especialização em relações internacionais. Aos 22 anos obteve o título de bacharel de artes, quando trabalhou um ano na empresa “Business International Corporation” e depois na Organização sem fins lucrativos “New York Public Interest Research Group”. Ainda hoje faz parte do grupo que publica a revista “The Economist” .
Relegando para segundo plano o curso de direito e as suas actividades, em 1985 mudou-se para Chicago (aos 24 anos) e trabalhou como agente comunitário num grupo religioso (director da “Developing Communities Project”) até 1988, onde coordenou variadas actividades tendo como objectivo melhorar as condições precárias daqueles bairros, devidas ao crime e elevada taxa de desemprego. Ingressou, no final de 1988, na Universidade de Harvard onde, em 1991, se licenciou em Direito, tendo sido o primeiro presidente afro-americano da revista “Harvard Law Review”.
Volta para Chicago, onde conhece a sua futura mulher Michelle (casa-se em 1992) e trabalha como advogado de direitos civis e professor de direito constitucional na Universidade de Chicago (durante 12 anos). Para além disso, entre 1992 e 2002, foi membro da mesa de diversas organizações e fundações contribuindo com melhorias para a sua comunidade.
A política esteve sempre no seu horizonte e cedo se apercebeu que para fazer mudanças não bastava apenas a nível local, mas sim a nível das leis e politicas nacionais. Em 1992, trabalhou no recenseamento eleitoral para o Partido Democrata. Depois de um notório trabalho como advogado e líder comunitário, concorreu para o Senado do Illinois em 1994 e foi eleito senador sem qualquer oposição do Partido Democrata. No ano de 2000 a sua carreira política sofreu o primeiro contratempo, pois Obama candidatara-se pelo estado de Illinois ao Senado dos E.U.A. mas perdeu na primária democrata contra Booby Rush (candidato apoiado por Bill Clinton). Isto não o fez abrandar e prosseguiu a sua brilhante carreira no senado estadual, contribuindo para a formulação de diversas leis de elevada importância relacionadas com os cuidados de saúde, uso de armas, guerras do Iraque e Afeganistão, entre muitas outras.
Em 2004, voltou a fazer campanha para o Senado dos E.U.A. e, embora os seus oponentes parecessem em melhor posição para ganhar esta corrida, devido a variados escândalos e ao forte carisma e convictas ideias de Barack Obama, este rapidamente viu a sua vantagem alterada. Na Convenção Nacional Democrata de 2004 captou todos com o seu dom da retórica e proferiu um eloquente discurso onde afirmava: “There’s not a liberal America and a conservative America, there is the United States of America. There’s not a black America and white America and latino America and asian America, there is the United States of America”. Após este brilhante discurso, vários analistas políticos já o consideravam uma personagem a ter em conta no futuro cenário político norte-americano, e possivelmente como futuro presidente. Venceu estas eleições por uma grande diferença do seu oponente e tornou-se no terceiro afro-americano desde a Reconstituição a ser eleito para o Senado dos E.U.A..
A 10 de Fevereiro de 2007, declara-se candidato do Partido Democrata às primárias para Presidente dos Estados Unidos da América, tendo como adversária a tão mediática Hillary Clinton. Durante vários meses Barack Obama e Hillary Clinton foram protagonistas de uma renhida disputa, que culminou com a vitória de Obama, que obteve o apoio dos mais variados estados. Em Agosto de 2008 foi nomeado oficialmente para concorrer à Casa Branca contra o experiente candidato republicano Jonh McCain. A 4 de Novembro do mesmo ano, Barack Hussein Obama foi declarado o 44º Presidente dos E.U.A, o primeiro afro-americano a conquistar tão poderoso cargo.Homem de fortes convicções e crenças, cidadão do mundo, lutador, corajoso e defensor aguerrido da sua comunidade e país, Barack Obama conquistou o coração de todos os americanos que votaram nele e de todas as pessoas que por esse mudo fora depositam nele esperança de um unificador e gerador de mudança para o mundo. Poderemos mesmo afirmar que o “I have a dream…” proferido por Martin Luther King terá sido respondido por um “Yes We Can” de Barack Obama, porque, de facto, ele já conseguiu realizar parte do Sonho.



Rita Ivo
Aluna do 3º ano da FCS (Medicina)

Singularismo Bush versus Obama

A impossibilidade de julgar eventos que ainda não ocorreram é evidente. Contudo, a avaliação do conteúdo do discurso de uma figura política dá azo a diversas interpretações do que é dito, tanto implícita como explicitamente. Consoante essa avaliação ficamos perante possíveis caminhos a percorrer tanto no campo da política doméstica como externa. No caso do presidente-eleito Obama, probabilidades e ideias-comuns perderam muito do seu peso. Obama, filho de um casal interracial americano, com uma infância humilde, conseguir chegar ao posto mais alto do executivo da nação-estado mais poderosa do planeta é um feito histórico. Não tanto demarca uma quebra com a ideia-comum da presidência americana – que conta com um americano proveniente de uma família estruturada nos fundamentos neoconservadores característicos desse país, caucasiano, educado nas melhores e mais prestigiadas universidades americanas, rico – como demonstra um afastamento da escravatura e segregacionismo outrora vividos. Alguns apontam a vitória de Obama contra McCain como um voto de censura contra o Partido Republicano e, em particular, ao Presidente George W. Bush. Esta vitória não assenta necessariamente no panorama político desse país visto apenas um terço dos eleitores caracterizarem-se como liberais/progressistas, mas na renúncia do ‘singularismo Bush’, na excepcionalidade dos seus dois mandatos como Presidente. Este singularismo denuncia-se pelo uso do chamado ‘hard power’, caracterizado pelo uso do confronto e por intervenções militares. Toda a argumentação de Obama, exemplo de mudança e quebra com o status quo, depende de considerarmos a América sob o controle de W. Bush como um soluço a dois tempos – um equívoco de dois mandatos – ou uma continuação do exercício hegemónico americano. Costumes à parte, pergunto-vos o seguinte: que Presidente americano bombardeou o Iraque, atacou o Afeganistão e começou uma guerra sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas? Decerto a resposta que a muitos ocorreu foi W.Bush, prova da tal ideia de ‘excepção’, de quebra com uma política externa americana mais suave. Àqueles que responderam W. Bush digo-vos que estão equivocados, pois foi Bill Clinton quem o fez em primeiro lugar. Clinton bombardeou o Iraque usando argumentos semelhantes ao que W. Bush viria a usar – que Saddam Hussein não deveria ser capaz de intimidar as nações-estado vizinhas com armas nucleares e biológicas – atacou o Afeganistão e o Sudão em 1998 em resposta a ataques terroristas contra embaixadas americanas em África e, em 1999, atacou a Jugoslávia sem o aval do Conselho de Segurança. Não é verdadeiro afirmar que W. Bush foi singular nas medidas que tomou durante os seus mandatos na Casa Branca. No entanto, W. Bush foi singular na maneira como chamou a si o medo sentido na América após os ataques de 11 de Setembro e, em particular, através dos métodos e da eloquência – ou falta dela – quando justificou as acções que viria a tomar em relação ao Afeganistão e Iraque. A questão que colocamos é se a presidência Obama será porventura um exemplo de ruptura com o passado. Não tendo ainda obra feita – sem contar com os pequenos passos dados como a escolha de alguns elementos para o seu governo como é o caso de Hillary Clinton – podemos apenas analisar discursos, manifestos políticos e intervenções feitas por Obama. Em agosto de 2007, num discurso que fez sobre segurança, clima e energia, Obama deixou transparecer o seu lado mais realista. Falando do incremento no número de conflitos a nível global devido às mudanças climáticas e nos possíveis 250 milhões de ‘refugiados climáticos’, Obama retorquiu que a responsabilidade de liderar os esforços globais caiam sobre os Estados Unidos da América pois são actualmente o maior produtor de gases nocivos para o ambiente. Não obstante, assegurou momentos depois que a China ultrapassará a América em pouco tempo no que toca a este assunto. Ora Obama admite as falhas dos governos que o antecederam, como a não ratificação do protocolo de Kyoto, peça fundamental na luta contra a crise ambiental, assumindo assim um papel que o demarca realmente de W. Bush e afins, ora sublinha que dentro em pouco a América já não será a ‘pior’, mas sim estando entre as ‘piores’ e, por conseguinte, um alvo menos válido de críticas. Além do mais, garante que embora o desafio seja avassalador, este trará benefícios para a economia americana. Acrescenta, portanto, que em 2050 o mercado global de ‘energia verde’ terá o valor de 500 mil milhões de dólares, o que trará benefícios para corporações americanas na formulação de (novos) mercados passíveis de exploração. Podemos inferir que o interesse implícito neste discurso é o de acrescentar capital à economia americana mesmo que isso seja à custa de retórica e da exploração do que Obama denomina de ‘exportação de promoções’ para países em vias de desenvolvimento dando azo, assim, à criação dos tais mercados futuros de energia verde. Podemos, contudo, aceitar que toda o conceito de mudança que Obama propôs é mais que mera retórica política. No mesmo discurso, Obama deixa-nos saber que só através do reforço de instituições, de alianças e parcerias, leia-se Organização das Nações Unidas e Parceria Transatlântica Europa-América, é que respostas viáveis aos problemas actuais de ordem internacional podem ser atingidas. Este ressurgimento do supranacionalismo – instituições acima do Estado mas em sociedade com o último – são inequivocamente contrárias às posições de W. Bush. É um avanço claro. Os desafios que enfrentamos nos dias que correm necessitam de respostas que envolvam os vários actores do panorama político, sejam nações-estado, Organizações Não Governamentais (ONG), grupos de lobbying, think tanks e corporações, de modo a coordenar as acções a tomar. Não há espaço para unilateralismo errático quando estão em causa situações que afectam o planeta no seu todo. Não há lugar para mero bilateralismo Europa-América. Não há tempo para novos Iraques; o tempo de agir é agora. A resposta tem de ser sonante, forte, coordenada e sustentada. Embora não considere que Obama seja uma figura transformadora do ponto de vista quase messiânico que lhe foi adjudicado; não obstante considerar que Obama reflecte muitas das características de presidências anteriores, tanto na maneira de pensar como, presumivelmente, de agir, não posso deixar de acreditar que a presidência Obama investirá a América com uma política externa mais vocacionada para a diplomacia e pragmatismo político – soft power – tão necessária para a estabilidade do planeta que chamamos de Nosso. Votaria em ‘Obama’ tanto hoje como, suponho, amanhã.



Rui Gomes
Aluno do 4º ano da University of Stirling (Ciência e Política)